Ansiedade: por que ela aumentou tanto e quando se torna sofrimento psíquico

A ansiedade sempre fez parte da experiência humana. Ela está ligada à antecipação e à necessidade de lidar com o que ainda não aconteceu. O que mudou é a intensidade, a frequência e o espaço que ela passou a ocupar na vida das pessoas. Quando a ansiedade deixa de ser pontual e passa a organizar pensamentos, emoções, corpo e escolhas, ela se transforma em sofrimento psíquico.

Ansiedade: por que ela aumentou tanto e quando se torna sofrimento psíquico

A ansiedade sempre fez parte da experiência humana. Ela está ligada à antecipação, à expectativa e à necessidade de lidar com o que ainda não aconteceu. Em doses pontuais, funciona como um sinal de alerta. O problema começa quando esse estado deixa de ser transitório e passa a organizar a forma como a pessoa vive, pensa, dorme, trabalha e se relaciona.

Hoje, a ansiedade não pode mais ser compreendida apenas como uma reação individual. Ela se apresenta como um fenômeno coletivo, atravessado por mudanças sociais, culturais e econômicas que impactam diretamente a saúde mental.


O crescimento da ansiedade no mundo e no Brasil

Os transtornos de ansiedade figuram entre os quadros mais prevalentes de sofrimento psíquico na atualidade. Dados internacionais indicam que ansiedade e depressão estão entre as principais causas de afastamento do trabalho e perda de produtividade em escala global.

No Brasil, esse cenário se intensificou nos últimos anos. Em 2024, o país registrou cerca de 500 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, representando um aumento de 66% em relação ao ano anterior. Esses números não refletem apenas quadros graves, mas também o avanço de estados persistentes de ansiedade, esgotamento emocional e sobrecarga psíquica que se acumulam silenciosamente ao longo do tempo.

Esse crescimento ajuda a compreender que a ansiedade não é um problema isolado, nem uma fragilidade individual. Trata-se de um sinal de adoecimento emocional que atravessa diferentes contextos da vida contemporânea.


Ansiedade não é só nervosismo

Reduzir a ansiedade a nervosismo ou agitação é uma simplificação que dificulta sua compreensão. Na prática clínica, a ansiedade aparece de formas muito mais sutis, contínuas e, muitas vezes, socialmente validadas.

Ela pode se manifestar como dificuldade constante de relaxar, sensação de urgência permanente, medo excessivo de errar, autocobrança elevada, pensamentos que não desaceleram ou um cansaço mental que persiste mesmo após períodos de descanso. Em muitos casos, a pessoa se adapta a esse estado e passa a considerá-lo “normal”.

Essa naturalização da ansiedade contribui para que o sofrimento psíquico se prolongue, sem que haja espaço para elaboração ou cuidado adequado.


Uma sociedade que produz ansiedade

A ansiedade não surge no vazio. Ela é produzida e sustentada por um modo de vida marcado por exigência constante, pressão por desempenho, comparação contínua e ausência de pausas reais.

Vivemos em uma cultura que valoriza produtividade, disponibilidade permanente e exposição contínua. As redes sociais intensificam a comparação, enquanto o ritmo acelerado da vida reduz os espaços de escuta e reflexão. Nesse contexto, a ansiedade deixa de ser apenas uma resposta a situações específicas e passa a funcionar como um estado psíquico permanente.

O sujeito se mantém em alerta constante, como se algo estivesse sempre prestes a dar errado. Esse estado de vigilância prolongada cobra um preço emocional e corporal significativo.


Ansiedade e gerações: X, Millennials e Geração Z

Embora a ansiedade atravesse todas as faixas etárias, ela se expressa de maneira diferente em cada geração.

Na Geração X, a ansiedade costuma estar associada ao medo de perder estabilidade, posição profissional ou segurança financeira, valores centrais em sua formação.

Entre os Millennials, é frequente a ansiedade ligada à frustração, à comparação social e à sensação de não corresponder às expectativas criadas ao longo da vida adulta, especialmente no campo profissional e afetivo.

Já a Geração Z cresce sob hiperconectividade, exposição constante e pressão precoce por identidade, pertencimento e desempenho. Estudos indicam aumento expressivo de sintomas ansiosos entre jovens, com impactos diretos no sono, na autoestima e nas relações sociais.

Apesar das diferenças geracionais, há um ponto comum: a dificuldade de sustentar limites, pausas e espaços de elaboração emocional em um mundo que exige presença contínua.


Quando a ansiedade deixa de ser um sinal e vira sofrimento

A ansiedade deixa de cumprir sua função quando passa a restringir escolhas, comprometer vínculos e limitar a experiência de estar no mundo. Quando tudo se torna ameaça, o futuro se transforma em fonte constante de preocupação e o presente perde espaço.

Nesse momento, não se trata mais de “controlar a ansiedade”, mas de compreender o que ela comunica. Muitas vezes, a ansiedade aponta conflitos psíquicos, histórias não elaboradas, exigências internalizadas ou modos de vida que já não se sustentam emocionalmente.

Ignorar esse sinal tende a intensificar o sofrimento e aprofundar o adoecimento psíquico.


O lugar da psicoterapia no cuidado com a ansiedade

A psicoterapia não oferece soluções rápidas nem promessas de eliminação imediata da ansiedade. Seu papel é outro. Trata-se de um espaço de escuta qualificada, onde o sujeito pode compreender como a ansiedade se organiza em sua história, em seus vínculos e em sua relação com o desejo.

Ao invés de silenciar o sintoma, o trabalho terapêutico permite dar sentido ao sofrimento, reduzindo sua intensidade e ampliando a possibilidade de escolhas mais conscientes. Quando a ansiedade começa a ocupar espaço excessivo na vida, buscar psicoterapia não é sinal de fraqueza, mas de cuidado e responsabilidade consigo mesmo.



Sobre o autor
Alexandre Jeremias é psicólogo e psicanalista, com atuação clínica voltada à saúde mental, sofrimento psíquico e psicoterapia. Desenvolve seu trabalho a partir de uma escuta ética e aprofundada, considerando os impactos subjetivos da vida contemporânea.

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